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29/04/2016



POR TODOS E PARA TODOS - FALANDO SOBRE SUSTENTABILIDADE



Presidente do Instituto Akatu fala sobre a importância do consumo consciente


Por Renata Moreira*

 

O que é consumir de forma consciente? Por que fazer isso? Quais ações que realmente têm efeito? Como diminuir o desperdício? Isso é o que Hélio Mattar, diretor presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, esclarece à Revista Shopping Centers, da Abrasce, na entrevista a seguir.

 

Revista Shopping Centers  Na sua avaliação, está havendo uma evolução em relação ao consumo consciente no mundo?

Hélio Mattar O consumo consciente anda de mãos dadas com a sustentabilidade. Não existe um sem o outro. O processo de mudança de modelo de produção e consumo, que é necessário para se chegar a uma situação de futuro sustentável, exigirá uma mudança na forma como os bens de serviços serão oferecidos para os consumidores.

Por exemplo, já existe no mundo o desenvolvimento de telefones celulares que podem ser chamados de modulares, feito de pequenos blocos. Cada um tem uma função diferente: câmera, discagem e memória. Com isso, é possível trocar apenas um bloco quando houver uma inovação, sem ter de adquirir um novo telefone.

Isso faz com que o aparelho seja usado por mais tempo já que as pessoas trocam rapidamente de celular porque querem novas funcionalidades.

Revista Shopping Centers  Os países europeus saem na frente quando se fala em consumo consciente? Por quê?

Hélio Mattar  Em alguns países europeus, como Alemanha, Inglaterra, França, a questão da coletividade tem um grande valor - e proteger a coletividade é a essência da sustentabilidade.

Nos países nórdicos, a coletividade é tão acentuada que os impostos são altíssimos – os maiores do mundo – e as pessoas não deixam de viver lá porque os impostos são gastos pelo governo para benefício de todos.

Revista Shopping Centers   Como está o consumo consciente no Brasil?

Hélio Mattar  Nosso consumidor exige mais das empresas do que qualquer outro na América Latina. Por exemplo, se você perguntar qual o papel das empresas, quase 60% dos brasileiros dizem que é atuar decisivamente a favor da sociedade e do meio ambiente. E não há nenhum outro consumidor na América Latina que esteja perto desse percentual. Muito provavelmente porque o brasileiro conta com uma mídia muito ativa em sensibilizar e mobilizar o consumidor para prestar atenção nas ações das companhias.

Nos Estados Unidos isso ocorre muito menos, mesmo na Europa, há menos cobertura de questões de sustentabilidade e de responsabilidade sócio ambiental de empresas. Na Inglaterra, praticamente um único jornal, o The Guardian, faz uma cobertura contínua dessas questões. Enquanto que no Brasil, praticamente todos os principais veículos abordam esses temas, em maior ou menos grau.

Revista Shopping Centers   O senhor falou sobre os consumidores se adaptarem ao processo de produção que passa a agredir menos o meio ambiente. Mas ocorre também o inverso? Está havendo uma cobrança por parte dos consumidores às empresas para que sejam mais conscientes?

Hélio Mattar  As redes sociais e a internet em geral colocam uma enorme transparência para tudo que é feito pelas empresas. É só uma questão de tempo para saber se uma empresa fez algo certo ou errado. Saber como o consumidor vai reagir a isso é uma segunda questão. Ele é sensível às questões sociais e ambientais. Logo, se fica sabendo que uma empresa, por exemplo, poluiu o meio ambiente, mais de 70% dos brasileiros dizem que deixarão de comprar o produto daquela fabricante.

Revista Shopping Centers:  O que leva uma pessoa a deixar de consumir de determinada empresa?

Hélio Mattar  Os principais fatores que levam alguém a isso são propaganda enganosa e tratamento inadequado dos funcionários. Esses dois elementos aparecem nas pesquisas desde 2000, quando começamos a realizá-las.

Revista Shopping Centers  Quais as recomendações para os shoppings centers colaborarem com o consumo consciente, considerando que eles têm a relação com o consumidor final e com os lojistas?

Hélio Mattar  Hoje, 430 milhões de pessoas passam por mês em shopping centers no Brasil. Isso é mais que duas vezes a população brasileira. Se os shoppings fizerem campanhas para a redução do desperdício de água e de energia elétrica, estarão prestando um serviço público imenso. Mas também podem fazer ações que estão diretamente relacionadas ao negócio.

Na verdade, eu tenho tido uma impressão muito boa em relação ao que os shoppings já vêm fazendo. Há quem tenha substituído as válvulas de descargas pelas mais econômicas, ou mudado as torneiras por aquelas que têm temporizadores, que abrem e fecham rapidamente. Assim como a colocação de aeradores nas torneiras, pois reduzem o volume de água, mantendo o mesmo efeito na lavagem das mãos. Em termos de energia elétrica, ao construir um mall novo, o empreendedor poderia procurar fazê-lo de forma que as lojas não precisem deixar a luz acesa durante o dia, que possam usar a claridade a seu favor. Outra ação positiva é não deixar os shoppings, depois que fecham, com todas as luzes acesas. Em produtos de limpeza, poderiam fazer escolhas observando o impacto que a cadeia produtiva de produtos gera, escolhendo aqueles que causam menor impacto. 


*Matéria publicada na edição 198, da revista Shopping Centers, da Abrasce