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13/02/2017



ABRASCE ENTREVISTA COM RICARDO AMORIM SOBRE OS RUMOS DE 2017


Uma conversa com Ricardo Amorim, um dos principais analistas político-econômicos do país, sobre o que vem por aí em 2017; é hora de aproveitar as oportunidades


Por Renato Müller para revista Shopping Centers, da Abrasce

 


O ano de 2017 deverá ser marcado por um crescimento acima das expectativas. A previsão otimista de Ricardo Amorim, presidente da Ricam Consultoria e um dos principais analistas do cenário econômico e político do país, não se baseia em ufanismo, e sim na constatação de que tudo que é ruim uma hora acaba. O país vem, há seis anos, surpreendendo negativamente, mesmo com expectativas cada vez mais pessimistas. Dessa forma, abre-se caminho para que qualquer crescimento fique acima do esperado.

Para o economista formado pela USP, com pós-graduação em administração e finanças internacionais pela ESSEC de Paris, debatedor do programa Manhattan Connection, da GloboNews, e único brasileiro incluído na lista dos mais importantes palestrantes mundiais do Speakers Corners, o ministério do governo Temer foi elaborado sob medida para destravar as reformas de que o país precisa para voltar aos trilhos e, por isso, as possibilidades de retomada do crescimento são bem consistentes. Ao mesmo tempo, o cenário político vem mudando, mas continua dependente da fiscalização constante da sociedade.

Nesta entrevista, Ricardo Amorim avalia o que é possível esperar da economia e da política brasileiras em 2017 e quais as possibilidades de sucesso do governo federal na realização do ajuste fiscal:

 

SHOPPING CENTERS – 2017 será um ano mais positivo para a economia?

Ricardo Amorim – Certamente 2017 será um ano bem melhor para a economia brasileira do que foram 2014, 2015 e 2016. Em primeiro lugar, porque esses anos foram muito ruins. Mais importante do que isso, o ano de 2017 deve surpreender inclusive em relação às expectativas de crescimento que existem hoje. Até julho, na média acreditava-se que o PIB não cresceria nada, segundo o boletim Focus do Banco Central, que é uma sondagem semanal realizada com mais de 100 economistas. No fim de outubro essa expectativa já tinha subido para cerca de 1% e é provável que continue subindo até o fim do ano, provavelmente chegando até uns 2%. E o que deve acontecer é que o crescimento deve ser maior que isso.

 

SHOPPING CENTERS – Por quê?

Amorim – Baseio essa expectativa em uma análise que fiz com dados de 180 países desde 1900, com a evolução de ciclos de surpresas positivas e negativas. Esses ciclos se alternam e, no caso brasileiro, nos últimos seis anos tivemos expectativas cadentes (a cada ano as expectativas eram inferiores às do ano anterior) e ainda assim em todos os anos as surpresas foram negativas. Esse é um ciclo muito longo, o que por si só já sinalizaria uma virada, mas quando somamos isso à perspectiva de queda de taxa de juros, ajuste fiscal e apreciação do real (que tem ajudado a derrubar a inflação e que deve continuar a ocorrer, abrindo espaço para os juros caírem bastante ao longo do ano que vem), a conclusão é que deveremos ter uma volta da confiança (que já começou, mas deve se intensificar) e da expansão do crédito. Com tudo isso, a expansão será mais forte do que o esperado.

 

SHOPPING CENTERS – O governo Temer conseguirá destravar as reformas de que o país precisa?

Amorim – O governo Temer foi montado sob medida para fazer as medidas serem aprovadas. Antes de o Temer tomar posse se falava que haveria um ministério de notáveis. Na prática não foi o que aconteceu: todos os notáveis estão no Ministério da Fazenda, e nos demais ministérios temos deputados e senadores. Por que o Temer optou por isso? Porque ele sabe que o que vai definir o sucesso ou não do governo dele é a capacidade de fazer o ajuste fiscal e que, para que o ajuste aconteça, duas medidas-chave precisam ser aprovadas no Congresso: a PEC dos gastos e a reforma da previdência. Para garantir apoio a essas duas medidas e também a aprovação do impeachment, ele montou um ministério basicamente composto por políticos, deixando exclusivamente na Fazenda os formuladores das medidas que precisam ser aprovadas. A julgar pelas votações ocorridas até agora, está funcionando: tanto o impeachment quanto a primeira votação da PEC 241 passaram com muita folga, o que sugere que o governo conseguirá aprovar as que restam e com isso poderá colocar a economia nos eixos e afastar as preocupações com relação à solvência do setor público.

 

SHOPPING CENTERS – O que é preciso para que a confiança dos consumidores e dos empresários volte?

Amorim – Para que os empresários retomem a confiança no Brasil precisamos, em primeiro lugar, deixar claro que não há risco de insolvência do governo brasileiro. Como se faz isso? Cortando os gastos públicos. E como se cortam os gastos? Aprovando a PEC dos gastos e a reforma da previdência. Com isso os empresários, retomando a confiança, voltam a contratar, e fazem com que a confiança dos consumidores também volte. Consumidores que retomaram seus empregos ou que deixam de ter medo de perdê-los voltam a gastar e, à medida que os consumidores gastam mais, as vendas das empresas crescem e as empresas contratam mais. Aí temos um círculo virtuoso que levará a economia a surpreender positivamente.

 

SHOPPING CENTERS – Existe solução no curto prazo que faça o país retomar um crescimento sustentável?

Amorim – É importante separarmos duas coisas. A primeira é uma recuperação econômica cíclica, que, para acontecer, só exige que as contas públicas sejam colocadas em ordem. Com as contas em dia, o Brasil volta a crescer pelo aumento da confiança, atração de investimentos e geração de empregos. Só isso garante pelo menos três anos de crescimento mais forte da economia, pois sairemos de uma base muito baixa. Isso acontece toda vez em que há uma queda grande do PIB.

A segunda questão é como sustentar essa recuperação. Para que seja possível crescer de forma continuada por períodos mais longos, precisamos resolver outros problemas. É onde entram a reforma trabalhista, a reforma tributária, a melhora de infraestrutura (o que exige uma regulamentação que ajude a trazer investimentos), do ambiente de negócios no Brasil, dos investimentos em mão de obra (o que só vêm com investimentos em educação), toda uma série de ajustes que demandam tempo. O problema principal é que, normalmente, quando a economia melhora por razões cíclicas, os governos, equivocadamente, acreditam que não há necessidade de fazer os ajustes estruturais e, ao não fazê-los, plantam as sementes da crise seguinte. Isso aconteceu ao longo do governo Lula, que plantou as sementes que estouraram no governo Dilma, além de uma série de equívocos do próprio governo Dilma, e espero que isso não se repita.

 

SHOPPING CENTERS – O que os empresários podem fazer para que esses erros não se repitam?

Amorim – É preciso manter a pressão para que o Brasil continue se tornando mais competitivo e, portanto, capaz de gerar riqueza e tornar a situação de todos os brasileiros melhor.

 

SHOPPING CENTERS – O que o resultado das eleições 2016 indica para o futuro do país?

Amorim – As eleições municipais mostraram algumas tendências importantes. A primeira foi uma forte aversão aos políticos estabelecidos. Talvez o caso mais marcante tenha sido o da cidade de São Paulo, onde o João Doria, que se posicionou como um empresário, como um não político, acabou tendo uma vitória surpreendente no primeiro turno, coisa que ninguém esperava. Isso não se limitou a São Paulo, aconteceu também em muitas outras cidades importantes. O segundo fato foi um encolhimento muito marcante do PT, que não chegou a ser uma surpresa, levando em consideração o mau desempenho econômico e todas as denúncias de corrupção que vieram à tona nos últimos anos.

Do ponto de vista da política nacional, talvez a consequência mais importante tenha sido o fortalecimento do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que bancou sozinho dentro do PSDB a candidatura do João Doria, e do ACM Neto, que teve uma vitória avassaladora em Salvador. Essas duas vitórias específicas projetam esses candidatos para o cenário nacional, mas ainda tem muita água para passar debaixo da ponte até 2018.

 

SHOPPING CENTERS – Vimos nos últimos dois anos um verdadeiro Fla-Flu político. Deixamos esse tempo para trás, finalmente?

Amorim – Uma das características marcantes da política brasileira nos últimos anos, e de forma bastante negativa, foi que a política se transformou num Fla-Flu em que, em vez de se defender o que é certo, ou medidas certas, houve definições muito claras a favor ou contra grupos políticos específicos. Sem dúvida há um enfraquecimento desse tipo de confronto com o encolhimento do PT, e especialmente da Dilma e do Lula, que alimentavam esse tipo de postura. Mas eu diria que o Fla-Flu está longe de estar resolvido. Em particular, o que sobrou de apoio ao PT continua apoiando esse tipo de coisa.

Como a posição em relação ao governo Temer é bem menos apaixonada, as pessoas tendem a julgar cada uma das propostas do governo pelos próprios méritos, caso a caso, em vez de assumir uma postura, a priori, de “se é do governo Temer é bom” ou “é ruim”. E esse é o caminho correto. Precisamos analisar cada proposta para avaliar se ela ajuda a construir um país melhor ou não. Se ela ajudar, deve ser apoiada. Se não ajudar, devemos lutar contra ela.

 

*Matéria publicada na revista Shopping Centers, da Abrasce