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02/12/2016



CONFIRA NOSSO PAPO COM UMA TREND HUNTER


Há 20 anos a americana Marian Salzman é referência no mundo quando o assunto é tendência e mudança de comportamento. É considerada a mais influente trend hunter do mundo

 

Por Ticiana Werneck*


  

   A trendspotter americana Marian  Salzman   se especializou em observar  movimentos emergentes – sejam eles em  qualquer esfera da sociedade –, interpretá-  los e analisar como irão impactar o mundo  das empresas e do consumo. Foi assim lá  atrás com o termo metrossexual,  referente  aos homens extremamente  vaidosos, que Marian ajudou a espalhar  por aí. Ela avisou: eles vão mudar o  mercado de higiene e beleza, o que de fato  ocorreu.

  Hoje outros vetores, ligados à maior  consciência do ato de comprar, estão  moldando o novo consumidor. Ela destaca  o fenômeno CO, a sílaba capaz de traduzir  uma geração, que COlabora, COmpartilha,  COproduz... “A vida é uma coprodução. O  CO tira o isolamento, torna tudo mais  vibrante”, ressalta. É essa colaboração, por  exemplo, que faz com que alguém lá em  Bangladesh compartilhe a foto de um  sapato na rede social questionando os amigos se deve ou não comprar. “Outras pessoas, além da que está na loja, estão envolvidas na compra”, resume.

O consumismo está em baixa, assegura Marian. “Preciso mesmo disso?” é a pergunta-símbolo que guia o consumidor frugal. O varejo vai precisar repensar algumas táticas e inovar. “Não pode haver medo de criar algo diferente”, diz. E, assim, se abre espaço para novos modelos de negócio. Em sua visão, por exemplo, os shopping centers serão cada vez mais destino para momentos de diversão. Lugar para encontro de casais, para festas entre jovens, e playground para crianças deixando as mães tranquilas por estarem cercadas em um ambiente controlado, entre muitas outras finalidades similares.

Ela inclui nessa lista até a possibilidade dos shoppings tornarem-se centros de e-learning. “É preciso aproveitar o espaço que os malls possuem para estimular a troca entre as pessoas, o aperfeiçoamento, o relaxamento, enfim demandas da sociedade atual”. E avisa: “Se seu shopping center se resume a compras, você sairá do mercado”. Como dica ela aconselha: “A compra se tornou uma atividade contextual. O que mais, além da troca do dinheiro por mercadoria, o frequentador pode fazer lá?”, questiona.

Na esteira dos consumidores frugais, crescem os sites e lojas baseadas em trocas ou na venda de itens usados. São os brechós modernos. Até grandes marcas aderiram a essa tendência. A rede americana de lojas de departamento Nordstrom passou a vender sapatos usados e reformados em seus outlets. O site Ebay cresce desde o início baseando-se na venda de itens usados, de aspirador de pó a calça jeans. A rede britânica Marks & Spencer tem um programa pelo qual o consumidor traz peças de roupa que não usa e ganha pontos para trocar pelo que quiser. “Tornou-se legal dizer que você comprou algo usado, ou que pagou pouco num outlet”, acrescenta. Esse é o novo cenário. Comece a pensar em maneiras de adaptar seu negócio a ele.

 

A nova cara do consumo pelas lentes da trendspotter Marian Salzman:

- O pequeno é o novo grande. Tornou-se hypster ter casa, escritório e carro pequenos. A grandeza física se tornou démodé.

- O mesmo vale para consumismo. “Preciso mesmo disso?” deve ser a pergunta a guiar o consumidor frugal. Essa pergunta pode implicar severamente as empresas que não vão além do produto.

- Devemos repensar a imperfeição. Pessoas assim como empresas não são perfeitas, isso é antinatural. Ao se assumir imperfeito passa a existir espaço para a autenticidade.

- Se há dez anos Marian ajudou a espalhar o termo metrossexual para alcunhar os homens extremamente vaidosos, agora ela retoma o olhar sobre a ala masculina. “O homem está confortável com seu papel de comandar a lista de compra do supermercado, a cozinha e a agenda da casa”, diz ela. Esse novo perfil de consumidor deverá moldar a oferta das empresas. “Esse homem possui uma lógica de compra diferente da mulher.”

- A fadiga é um mal mundial, segundo Marian. Cidades grandes, correria, poluição, violência, excesso de estímulos, pessimismo, más notícias... “Estamos cansados, só queremos uma soneca”, arrematou. Há uma oportunidade para o varejo aqui. Ela sugeriu que os ambientes de compras abracem para si a missão de se tornarem espaços de convivência, diversão, enfim um lugar para escapar da pressão, combater a fadiga e simplesmente respirar relaxado.

 

Passe o bastão

Marian falou muito sobre o reúso. Mas os novos brechós em nada se assemelham a ambientes empoeirados. Veja esta loja em Tóquio, a Pass the Baton (ou Passe o Bastão). Ela se descreve como uma loja de Cultura Pessoal. O ambiente foi pensado para conectar vendedor e comprador. Antes de deixar a venda qualquer item – qualquer mesmo – o vendedor providencia um pequeno histórico daquela peça: quando e onde comprou, para qual finalidade… Uma minibiografia, que se encarregará de aumentar o valor sentimental do objeto, daí a designação Cultura Pessoal que a loja incentiva cada um a passar adiante. O visual da loja é impressionante. Um design arrojado e atrativo, que ajuda a destacar ainda mais cada objeto (muitos nem parecem usados). O lema da loja é simples: “Há muito excesso. Criar algo novo é fantástico, mas cuidar bem de algo que já existe pode ser mágico. Valores pessoais passados de mão em mão tornam-se tesouros para um novo alguém”.

 

Pensando antes de comprar

A Marks & Spencer, tradicional varejista britânica, chamou  a atenção com o projeto Shwopping (uma brincadeira que mistura as palavras inglesas comprar+trocar), que incentiva as consumidoras a levar peças – de qualquer marca – que não usa para a loja e simplesmente descartá-las em uma cesta. As peças podem ser recicladas, revendidas ou doadas a necessitados. Em seis semanas, as lojas arrecadaram 500 mil peças. “Se o consumidor não comprou porque percebeu que já tem três blusas de verão, não importa. Saberei que fiz bem meu trabalho. Fiz ele pensar, ele pode gastar em outras coisas”, explicou o CEO, Marc Bolland.

 

Enjoei e vendi

O site brasileiro de e-commerce Enjoei.com.br está crescendo, intermediando a venda de produtos (muito estilosos) de segunda mão. “Você tem um monte de coisas legais, mas enjoou? Ótimo. Vamos vender e comprar mais”, diz o site que vende de tudo: chapéu, óculos, relógio, roupa, tênis, cadeira, roupa de criança... Mas tudo tem de ter um certo estilo, uma bossa. “Nós selecionamos o que entra no site, só entra o que a gente compraria”, arremata  a criadora Ana Luiza McLaren. Para vender lá, o vendedor só precisa fotografar os seus “enjoos”, colocar uma descrição (que inclui o tamanho da peça, quantas vezes foi usada e a marca – se tiver). “Se a peça foi muito usada não tem importância, não. Importante mesmo é ser bacana”, diz Analu. Como o chapéu Panamá de R$ 35, os óculos Prada de R$ 350 ou o tênis Adidas de R$ 190.

15% do valor da venda fica com o site “pra curar o enjoo”, como diz Analu. Trocar ou vender itens de segunda mão tem se tornado um negócio lucrativo. Que o diga a gigante americana Ebay, que trabalha com sistema similar, e o nacional Mercado Livre. O lema? Fazer a Economia Girar, Espalhar o Belo, Devolver as Coisas ao Mundo.

 

Aluguel de brinquedos

Não é raro vermos crianças se desinteressarem por brinquedos que ganharam há pouco tempo e pedirem algo novo. Mas brincar pode ser um ato de consumo compartilhado! Empresas, lá fora e aqui no Brasil, investem num novo nicho: serviço de aluguel de brinquedos e acessórios para bebês e crianças. Funciona com uma assinatura mensal e diferentes tipos de plano, que definem a quantidade de brinquedos a serem enviados à casa da criança, e o tempo que eles ficarão lá.

 

 

*Matéria publicada na revista Shopping Centers, da Abrasce