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25/10/2016



A HISTÓRIA POR TRÁS DA ÚLTIMA CAPA DA REVISTA SHOPPING CENTERS


Eduardo Kobra, um dos maiores nomes da arte de rua brasileira, fala de sua relação com a arte, as inspirações para suas obras. Ele é o autor da capa especial da revista Shopping Centers, que celebrou os 50 anos da indústria no Brasil

Por Christye Cantero*


 

Eduardo Kobra é um artista brasileiro reconhecido mundialmente. Suas obras estão espalhadas por todo o planeta: Estados Unidos, Emirados Árabes, Itália, França, Taiti e Japão são alguns dos países que abrigam seus murais. No Brasil, um dos seus trabalhos recentes que também fizeram sucesso foi o mural “Todos somos um” que pintou no Boulevard Olímpico para a Rio 2016, onde retratou os rostos de cinco nativos dos cinco continentes, fazendo uma alusão aos aros olímpicos - foi reconhecido como o maior grafite do mundo pelo "Guiness World Records", o livro dos recordes.

Um dos maiores expoentes da arte de rua brasileira nasceu em um bairro da periferia da capital paulista. Na adolescência, gostava de skate, hip hop e pichação. “Minha família era contra. Muitas adolescentes de 14 anos envolvidos com pichação acabavam também se envolvendo com drogas. Eu nunca me envolvi com isso, mas meus pais queriam me proteger porque era um caminho perigoso”, diz. Antes disso, aos 8 anos Kobra já apresentava habilidade para desenhar. Da pichação, partiu para os grafites e, finalmente, para o muralismo e para o mundo.

O artista paulistano costuma ter como ponto de partida para seu trabalho a pesquisa da memória da cidade onde irá colocar uma obra, preservando a história local e também a identificação das pessoas com o lugar. Para celebrar os 50 anos da indústria de shopping centers no Brasil, topou produzir a capa desta edição. A seguir, confira a entrevista exclusiva que Eduardo Kobra concedeu à revista Shopping Centers.

 

Revista Shopping Centers – Como começou sua relação com a arte?

Eduardo Kobra – Tudo aconteceu naturalmente, não foi uma decisão minha. Tanto que entrei em uma galeria de arte pela primeira vez com 30 anos. Nunca conheci um artista. Como eu pichava, quando comecei a ver o trabalho dos grafiteiros de Nova York, na década de 90, comecei a pintar. E pesquisei muito sobre isso. Até hoje o que faço é buscar informação para basear o meu trabalho. Com o tempo, começaram a surgir os projetos e isso foi ganhando uma grande proporção. Hoje tenho pessoas que administram a parte comercial disso tudo.

 

Revista Shopping Centers – Por falar em lado comercial, não é comum ver sua obra associada a produtos.

Eduardo Kobra – Por uma decisão consciente, minhas associações comerciais são poucas. Não se vê muita coisa minha em produto. Eu não quero, é uma decisão pessoal. Não quero o exagero da exposição do meu trabalho. Se for algo legítimo, ok. O mural do Ayrton Senna, por exemplo, foi patrocinado pela Audi (marca trazida ao Brasil pelo ex-piloto de Fórmula 1). O projeto foi criado por mim, não foi alterado, e foi feito em parceria com o Instituto Ayrton Senna. Agora, a partir do momento em que se interfere no trabalho, se perde muito da essência. Não tenho problema de fazer uma fachada de hotel, por exemplo, desde que meu trabalho seja respeitado.

 

Revista Shopping Centers – O que diferencia o grafite de um mural?

Eduardo Kobra – São rótulos que funcionam mais no meio do que para as pessoas em geral. O fato de a arte ser autorizada ou não é o que define um mural. O grafite é ilegal, já o mural é permitido, tem a autorização do proprietário para ser feito. O da Avenida 23 de Maio, em São Paulo, por exemplo, é um mural, porque tem autorização da prefeitura da cidade.

 

Revista Shopping Centers – Quem serviu de referência para seu trabalho?

Eduardo Kobra – O muralismo existe há muitos anos: Portinari era muralista, o mexicano Diego Rivera também. Mas no início eu não tinha referência. Quando comecei a pintar um prédio, não tinha visto alguém fazendo. E é importante salientar que existe um respeito entre os artistas: quando tem uma pichação, aquele muro pertence a quem o pintou primeiro. O mesmo vale para o grafite e o mural. E o respeito só é alcançado quando você respeita o outro. Eu jamais vou pintar um mural para colocar meu trabalho por cima de outro.

 

Revista Shopping Centers – Você começou com pichação, foi para o grafite e depois para o mural. Esse é o caminho natural?

Eduardo Kobra – Isso não é uma evolução. Grafiteiro é grafiteiro, muralista é muralista, mas muitos grafiteiros pedem autorização e fazem um mural. Antes da pichação eu desenhava, tinha vocação para isso. Acabei indo para o mural porque a característica do meu trabalho não permite que eu o execute rapidamente. E o mural é arte legalizada.

 

Revista Shopping Centers – Como surgem as inspirações para os seus trabalhos?

Eduardo Kobra – Penso nisso o tempo todo. Todo mural parte de um projeto, que aplico em uma tela e depois, algumas vezes, vai para o muro. Tenho vários desenhos feitos e poucos deles vão parar nas ruas, e anoto no celular os trabalhos que ainda quero fazer. Também costumo me basear na história, em fatos que estão na memória.

 

Revista Shopping Centers – Como na sua obra da Times Square, que é um dos pontos mais usados para selfies em Nova York?

Eduardo Kobra – Sim. O que retratei ali é uma cena da cidade. A parte de baixo do muro mostra a Times Square em 1945, e a de cima é uma releitura da famosa foto de Alfred Eisenstaedt, em que um marinheiro beija uma enfermeira após saberem do final da Segunda Guerra Mundial. Sempre que viajo, faço uma pesquisa histórica e iconográfica para levantar fatos importantes. Outro exemplo é o mural em Cincinatti que retrata o astronauta Neil Armstrong: além de ser o primeiro homem a pisar na Lua, ele era responsável por fotografar e capturar imagens, por isso usava uma câmera pendurada no pescoço. Na obra, reproduzi esse fato. Este ano também fiz um mural em Chicago em homenagem ao centenário de Muddy Waters, considerado o pai do blues. Por trás dessa arte tem uma história de vida: foi ele quem criou a guitarra elétrica, por exemplo. É um personagem da música mundial.

 

Revista Shopping Centers – Qual mural tem o significado mais relevante para você?

Eduardo Kobra – Eu não gosto da obra em si, mas da possibilidade de tê-la feito. Gosto da oportunidade de conhecer novos lugares, países, culturas e ainda poder deixar meu trabalho lá. Há dez anos não tiro férias, mas durante as viagens acabo aproveitando as cidades e descobrindo suas particularidades. Afinal, a obra está na rua e pode influenciar o meio urbano, a arquitetura, por isso sempre procuro encontrar um equilíbrio e uma forma de incorporar meu trabalho ao local, para criar algo que faça sentido para as pessoas que vivem ali.

 

Revista Shopping Centers – Já fez trabalhos para shoppings?

Eduardo Kobra  - Sim, já fiz. Não há por que recusar, desde que se respeitem as características do meu trabalho. Todos os convites que surgem eu avalio. Se achar legal, eu faço.


 


*Matéria publicada na revista Shopping Centers, da Abrasce