Mobilidade elétrica em shoppings: a regulação avançou. A governança acompanhou?
Da evolução regulatória à gestão de diferentes operações elétricas, o desafio passa a ser menos olhar cada frente isoladamente e mais compreender como o empreendimento governa o conjunto.
A mobilidade elétrica já faz parte da realidade dos shopping centers há anos. Isso não é novidade para quem vive o setor.
O que começa a mudar é a forma como essa presença precisa ser lida.
Ao longo dos anos, diferentes aplicações foram incorporadas aos empreendimentos por áreas, contratos, fornecedores e necessidades distintas. Naturalmente, cada uma encontrou sua própria estrutura de decisão e acompanhamento.
A questão que surge agora é outra: essa leitura fragmentada continua suficiente diante da evolução da própria gestão dos empreendimentos e de um ambiente regulatório, securitário e de responsabilização cada vez mais exigente?
A regulação ganha dimensão nacional
Em agosto de 2025, o Conselho Nacional dos Comandantes-Gerais dos Corpos de Bombeiros Militares, por meio da LIGABOM, publicou uma Diretriz Nacional para garagens e locais com Sistemas de Alimentação de Veículos Elétricos – SAVE, estabelecendo parâmetros mínimos de referência para os Corpos de Bombeiros de todo o país.
A aplicação, porém, ocorre no âmbito estadual, respeitando particularidades locais. Isso significa que administradoras com empreendimentos em diferentes regiões precisam acompanhar não apenas a evolução tecnológica, mas também o estágio regulatório de cada ativo.
São Paulo é um dos exemplos mais avançados desse movimento. Em março de 2026, a atualização da IT-41 incorporou requisitos específicos relacionados aos SAVE e, para edificações existentes, vinculou parte dessas exigências ao processo de renovação do AVCB.
Em outros estados, a regulamentação ainda está em diferentes estágios – e essa diferença já começa a influenciar decisões de investimento.
Luana Costa, gerente corporativa da Tacla Shopping, relata:
“Atualmente, suspendemos a implantação de dois eletropostos enquanto aguardamos a resolução do Corpo de Bombeiros do Estado do Paraná.”
A discussão, portanto, já deixou de ser apenas sobre instalar ou ampliar infraestrutura. Ela passa a envolver também segurança contra incêndio, responsabilidade operacional e técnica, conformidade documental e previsibilidade para a tomada de decisão.
O risco segurado também entra nessa equação
Paralelamente, a Lei 15.040/2024 – o Marco Legal do Seguro – estabelece o dever de comunicar à seguradora agravamentos relevantes do risco.
E esse ponto merece uma leitura mais ampla do que a simples instalação de um novo carregador.
A ampliação da infraestrutura de recarga, o crescimento de frotas elétricas operacionais, a substituição de veículos a combustão por elétricos e a introdução ou expansão de novas operações podem modificar o perfil de risco de um empreendimento.
Isso não significa que toda mudança caracterize automaticamente um agravamento relevante nos termos da lei.
Significa que essas alterações precisam ser avaliadas sob a ótica do risco segurado, para verificar de que forma modificam a probabilidade de ocorrência de um sinistro ou a severidade de seus efeitos – e quais providências essa mudança passa a exigir no âmbito securitário.
À medida que a mobilidade elétrica cresce dentro do shopping, cresce também a necessidade de governança sobre essas diferentes frentes, permitindo ao empreendimento conhecer, documentar, acompanhar e avaliar continuamente como cada operação impacta o seu perfil de risco.
Um setor que começou a se mover antes da exigência
A Abrasce já havia percebido esse movimento antes que parte desse ambiente regulatório avançasse.
Em setembro de 2025, a Abrasce tornou-se a primeira associação setorial do país a lançar um Protocolo de Veículos Elétricos, com orientações práticas de prevenção e segurança voltadas especialmente aos eletropostos e à resposta a emergências envolvendo veículos eletrificados.
Foi um passo importante.
A experiência dos próprios gestores mostram que essa evolução não acontece de uma única maneira.
Em alguns grupos, o tema já ultrapassou a esfera de decisão de cada unidade.
José Luiz Miranda, superintendente do Salvador Shopping – Grupo JCPM, explica:
“Esse assunto é decidido corporativamente, e não pelas unidades de shopping. A decisão está na holding.”
Em outros empreendimentos , o movimento aparece na transversalidade das áreas envolvidas.
Para Vilemar Ferreira, gerente executivo do Grupo JCC observa:
“Hoje, diferentes áreas participam da análise de uma operação ou infraestrutura ligada à mobilidade elétrica. A operação avalia a viabilidade técnica, o marketing olha a agenda ESG, e comercial e financeiro analisam a viabilidade econômica, tudo coordenado pela gestão executiva.”
Os dois exemplos mostram movimentos diferentes, mas relevantes: de um lado, a centralização da decisão; de outro, a participação de diferentes áreas no processo.
Operações conhecidas. Uma nova leitura sobre o conjunto.
O desafio não está em explicar ao setor que diferentes aplicações de mobilidade elétrica convivem dentro dos shopping centers. Essa realidade já faz parte da operação.
O ponto está em perceber que essas aplicações nem sempre chegaram ao empreendimento pela mesma porta.
Elas podem estar submetidas a contratos, fornecedores, responsáveis internos, critérios de aprovação, rotinas de manutenção e estruturas de acompanhamento diferentes.
A própria experiência da Tacla Shopping ilustra essa dinâmica. Segundo Luana Costa:
“Com exceção do eletroposto, que para nós é considerado um negócio, os demais itens ficam principalmente com as áreas de operações e segurança, onde atualmente fazemos uso dessa mobilidade tanto para a equipe quanto para o cliente.”
Essa diferenciação é natural. Cada frente possui características, finalidades e níveis de criticidade próprios.
Há também ocorrências recentes envolvendo diferentes aplicações da mobilidade elétrica.
No Capim Dourado Shopping, em Palmas, um veículo elétrico de cliente pegou fogo no estacionamento do empreendimento, embora não estivesse em processo de recarga naquele momento.
Em outro shopping center, um diciclo elétrico utilizado pela equipe de segurança apresentou fumaça na bateria após ser retirado da área de recarga e, pouco depois, pegou fogo. A ocorrência foi controlada no próprio local.
Mas, à medida que regulação, segurança, seguro, documentação e responsabilização começam a se aproximar, surge uma pergunta diferente:
quem possui a leitura do conjunto?
Governança não significa transformar operações diferentes em uma única operação.
Significa estabelecer uma camada capaz de reconhecer essas diferenças, organizar responsabilidades, definir critérios proporcionais e permitir uma leitura consolidada da mobilidade elétrica presente no empreendimento.
Mas mesmo essa resposta ainda não encerra a questão.
Governar internamente é necessário. Mas quem verifica o padrão?
Definir responsáveis internos é parte fundamental dessa evolução.
Mas nomear uma área ou um profissional para cuidar do tema não responde, sozinho, a uma segunda questão: sob qual padrão essa governança está sendo realizada?
Quando diferentes operações, fornecedores, veiculos e equipamentos, e responsabilidades convivem no mesmo ambiente, não basta saber quem decide.
É preciso saber quais critérios sustentam essa decisão, como sua aderência é verificada, quais evidências permanecem documentadas e como esse padrão é mantido ao longo do tempo.
Uma estrutura interna organiza as responsabilidades. Mas, quando essa estrutura precisa ser apresentada ao jurídico, à seguradora, ao Corpo de Bombeiros, à administração, ao conselho ou eventualmente analisada depois de um incidente, surge uma necessidade adicional: demonstrar que aquilo que o empreendimento definiu como adequado foi efetivamente estruturado, verificado e mantido segundo uma régua reconhecível.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas sobre organizar responsabilidades internamente e passa a incluir também a capacidade de demonstrar, por meio de critérios verificáveis e evidências documentadas, que o padrão definido pelo empreendimento está sendo efetivamente cumprido e mantido ao longo do tempo.
Essa lógica exige proporcionalidade. Nem toda aplicação de mobilidade elétrica possui a mesma criticidade, e tratá-las da mesma forma seria tão inadequado quanto permitir que cada uma permaneça isolada, sem uma leitura comum de governança.
O desafio está justamente em construir uma régua capaz de diferenciar, verificar e sustentar essas operações sem perder a visão do conjunto.
O setor deu um primeiro passo importante ao estruturar a discussão sobre a recarga dos veículos de clientes.
A questão agora é mais ampla:
quem governa hoje o conjunto da mobilidade elétrica presente no empreendimento?
Sob qual padrão essa governança está sendo realizada?
E quem verifica, de forma independente, se esse padrão continua sendo cumprido?
Em um ambiente de responsabilidade crescente, não basta apenas organizar a operação.
É preciso conseguir demonstrar que ela permanece governada sob um padrão verificável.
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Rodrigo Andrade é fundador da V4Safe, empresa especializada em governança e certificação da mobilidade elétrica em empreendimentos.
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