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21/03/2017



VAMOS FALAR SOBRE ECONOMIA COMPARTILHADA?


Portal da Abrasce conversou com o consultor Paulo Ancona sobre esta forma de operar na qual visa-se o uso conjunto, a economia e a redução de custos

 

Por Ticiana Werneck, da Abrasce

 

Para o consultor Paulo Ancona, sócio-diretor da Vecchi Ancona, 2016 foi um ano atípico e revelou um exaurimento do atual modelo econômico mundial. “Para algumas coisas não há mais volta. Esse é o caso das mudanças e da velocidade com que acontecem”, comenta.

A cultura das empresas tradicionais e seus modelos já foram destruídos e poucos se deram conta disso, diz ele. “Foram triturados pelos aplicativos, pela Internet, pela compra online, pelo Big Data”, opina. O mundo se vê tomado por exigências de ações de governança para tentar colocar um pouco mais de ética na vida de empresas e instituições e de sustentabilidade, da qual faz parte a nova realidade chamada “economia compartilhada”.

Não se trata de tomar algo emprestado de forma gratuita e nem de fornecer algo de graça, mas sim de se consumir algo em conjunto com outras pessoas ou empresas, sejam produtos ou serviços, ou simplesmente “vivências ou experiências” novas de consumo, de lazer ou de facilidades. Esqueça o fato de que sempre haverá um “dono” ou a “posse” de algo. Pelo contrário! A economia compartilhada visa o coletivo, a divisão, o uso conjunto, a economia e a redução de custos e despesas.

Isso é bom? Para quem se vale desse conceito, sim! Mas para as empresas que deixarão de vender e de serem proprietárias de “coisas e situações”, não, pelo menos até que passem a participar dessa nova realidade. “Muitas não sobreviverão”, comenta Ancona, “pois lhes faltará o conceito, a cultura, o modelo ou ainda por terem seus produtos e serviços atropelados pelo novo”.

O poder da economia colaborativa em fomentar negócios baseados no compartilhamento é enorme. O modelo é vantajoso tanto para quem oferece quanto para quem contrata um serviço, já que intermediários e os custos de uma estrutura formal de comércio foram eliminados.

As novidades que vem surgindo na logística irão reduzir os custos das empresas compartilhadoras, fazendo-as mais competitivas. A plataforma Airbnb — de oferta de cômodos vagos e imóveis para locação por temporada — tem hoje um valor de mercado superior ao de grandes grupos hoteleiros, como o Hyatt. Os empreendimentos colaborativos movimentaram mais de 110 bilhões de dólares em todo o mundo por ano, segundo a revista Forbes.

Outro exemplo são os espaços de coworking. Em breve, teremos compartilhamento de equipes de trabalho ou estruturas, o uso comum de suportes e serviços para logística, serviços de telefonia, serviços bancários, o uso de veículos nas cidades, de reuso de equipamentos e assim por diante.

A legislação não prevê em suas regulamentações essas situações que irão bater de frente com tributos. Um bom exemplo é o que vemos acontecer no mundo inteiro com o Uber, a nova realidade dos táxis, ou seriam serviços de carona? Ou motoristas particulares? O mundo dos negócios está suportado por paradigmas que estão sendo literalmente destruídos. Acompanhe a entrevista:

 

Portal da Abrasce - A regra básica da economia compartilhada é a de dividir em vez de acumular. Ele é viável em qualquer setor?

Paulo Ancona - É uma forma de atuação onde todos tendem a ganhar juntos e aí fica mais claro o conceito de compartilhar. É preciso mudar o paradigma atual capitalista onde a riqueza se concentra, para outro, onde ela é distribuída entre os que geram a riqueza.

 

Portal da Abrasce - A economia de recurso é um dos maiores benefícios. Há outros benefícios?

Paulo Ancona - No momento em que eu, por exemplo, atuo num espaço compartilhado com outros profissionais e empresas, o custo fixo será bem menor. Além disso, podem-se trocar serviços entre essas empresas, aproveitar o que cada um tem de expertise, como numa comunidade ou cooperativa. Produtos podem ser reaproveitados, como, por exemplo, um sistema e equipamentos de TI que não atende mais a alguém, pode servir para outro. Está embutido nesse conceito o reuso, reciclagem, trocas e lógico, compartilhamento.

 

Portal da Abrasce - Uber e Airbnb revolucionaram o setor de transporte e hotelaria, respectivamente, sem possuirem nenhum carro ou quarto de hotel. Quais outros setores também passarão por transformações similares?

Paulo Ancona - Qualquer setor pode ser totalmente modificado a partir de um simples aplicativo de celular. Nesse caso, o uso de um aplicativo, desenvolvido por alguém que não é atuante no setor, mas que consegue ter uma visão inovadora, pode alterar todo o equilíbrio entre concorrentes.

Dentro do setor de alimentação, por exemplo, há aplicativos que atendem delivery de muitas formas, envolvendo empresas diversas que compartilham o roteiro de entregas. Há maior colaboração também, e estas empresas podem fazer compras mais vantajosas em conjunto.

 

Portal da Abrasce - Você afirma que muitas empresas "não sobreviverão” pois lhes faltará a cultura ou por terem seus produtos e serviços atropelados pelo novo. Isso faz parte do ciclo de desenvolvimento das empresas e da economia. Qual o remédio?

Paulo Ancona - As empresas que continuarem fechadas ao uso de aplicativos, de comunicação online ou mesmo afastadas do conceito de compartilhamento ou colaboração, atuando no velho conceito de estruturas rígidas e processos burocratizados, com uma cultura fechada para o novo e a inovação, não terão espaço em pouco tempo.