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28/11/2016



ATUAÇÃO DOS SHOPPING CENTERS PODE DIMINUIR IMPACTOS NEGATIVOS NO MEIO AMBIENTE


Por Instituto Akatu*

 

Nos shopping centers, clientes consomem lazer, produtos, alimentos e serviços. Mas não são apenas os frequentadores que têm poder de escolha. Existe o outro lado, o do empreendimento que seleciona e se relaciona com fornecedores, desde a construção até a operação do mall. Por ser um grande comprador, o shopping tem forte impacto no mercado e na comunidade local com suas escolhas, e pode influenciar a cadeia de fornecedores a se comprometer aos princípios de sustentabilidade da empresa.

Investir no respeito a padrões trabalhistas e ambientais é construir a longevidade dos empreendimentos e do próprio consumo, uma vez que nos encontramos diante de problemas graves de mudanças climáticas e escassez de recursos. Um exemplo de empreendimento que está pensando na cadeia é o Camará Shopping, com inauguração prevista para o início de 2017, na cidade de Camaragibe (PE). O shopping implementou o Programa Fornecedor Responsável, com preocupação socioambiental do empreendimento desde a fase de obras.

Além de priorizar a contratação de produtos e serviços da própria cidade, para estimular o desenvolvimento local, o shopping estipulou que fornecedores e prestadores de serviços se enquadrem nos requisitos de sustentabilidade do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS). Entre eles estão apresentar licença ambiental da empresa e da unidade fabril, possuir um bom perfil socioambiental e comprovar as ações desenvolvidas. “Cerca de 90% das empresas não atendem aos requisitos. E o shopping tem a obrigação de estimular o mercado a mudar, fazendo com que as parceiras insiram ações socioambientais na sua atuação”, afirma Felipe Oliveira, gerente de sustentabilidade do Camará Shopping.

O cuidado com a escolha, a avaliação e a qualificação de fornecedores também existe desde a fase de obras dos shoppings RioMar de Recife e de Fortaleza (do Grupo JCPM). Itens como blocos, pisos, estruturas metálicas e revestimentos cerâmicos seguem a análise de projetistas certificados e com selo de qualidade ou de instituições ligadas ao sistema normativo nacional, como o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro). “Pedimos certificações também de programas setoriais de produção, garantindo que são produtos provenientes de locais com monitoramento e gestão ambiental, que não praticam uso de mão de obra infantil, que seguem critérios do Ministério do Trabalho e que têm programas socioambientais”, afirma Sérgio Maffioletti, gerente socioambiental do grupo.

 

Escolha consciente na prática

O Grupo JCPM, que tem shoppings nos estados de São Paulo, Bahia, Ceará, Sergipe e Pernambuco, compra produtos de limpeza biodegradáveis, isentos de petróleo ou gás propelente, feitos com matéria-prima de origem vegetal. “Não temos de trabalhar só com preço. Temos de estar atentos à questão socioambiental, e isso é um diferencial. Quem não se preocupar com isso ficará fora do mercado”, afirma Fabiano Mehmeri, coordenador de desenvolvimento socioambiental do grupo.

A boa notícia é que preço não é mais uma desculpa para não adotar esses itens com baixo impacto ambiental. “Há pelo menos sete anos esses produtos de limpeza estão disponíveis com valor bastante competitivo. Nossos shoppings não sentiram um aumento de gastos com essa escolha”, conta Elizabeth Morita, gerente de segurança, saúde e meio ambiente da Sonae Sierra Brasil. Desde 2008, a Sonae também compra produtos de limpeza biodegradáveis e sem derivados de petróleo em sua composição, fornecidos pela Verzani & Sandrini.

Mas a limpeza é apenas uma das áreas nas quais os fornecedores sustentáveis podem atuar. A área administrativa do RioMar Shopping de Recife optou por utilizar, há dois anos, o papel A4 da EcoQuality, produzido a partir da celulose da cana de açúcar. Após o processo de extração do açúcar, em vez de o bagaço ser descartado ou queimado para gerar energia térmica, ele é reaproveitado para fazer um papel reciclável e biodegradável. O processo de branqueamento da celulose é livre do uso de cloro elementar (“puro”), por ser feito com produtos químicos à base de ozônio, oxigênio, peróxido de hidrogênio e dióxido de cloro. As fábricas têm sistema de reaproveitamento de todos os resíduos sólidos do processo, e toda a água devolvida ao meio ambiente é tratada.

Outros empreendimentos do Grupo JCPM usam tintas à base de água ou com menor emissão decompostos orgânicos voláteis (COV), presentes em tintas com solventes e metais pesados. Esses compostos de carbono, que viram gases à temperatura ambiente, consomem a camada de ozônio e são danosos à saúde. “Com essas tintas, você também não tem a sensação de acidez no nariz, por isso, logo que é feita a manutenção, o ambiente pode ser aberto aos clientes”, diz Maffioletti.

 

Soluções conjuntas

Em 2014, o Parque D. Pedro Shopping, de Campinas (SP), fez um acordo com a empresa Water Meyer, responsável pelo tratamento de água do sistema de ar-condicionado do empreendimento. O desafio lançado ao fornecedor foi reduzir os impactos ambientais do produto químico usado na manutenção preventiva do sistema.

O resultado foi a substituição de 400 litros de produto químico líquido (aproximadamente 400 quilos) por 20 quilos em base sólida. O tratamento ficou mais eficiente, o transporte foi facilitado com a diminuição do volume e o uso de matérias-primas para fazer a embalagem do produto foi reduzido. Antes da mudança, 20 bombonas por mês eram transportadas em veículos movidos a diesel – combustível com maior pegada de CO2 – e significavam um descarte de 26 quilos de plástico PEAD, polietileno de alta densidade. O Programa WaterSolv trocou o sistema de transporte para veículos de sistema flex (a álcool e a gasolina) e gera 800 gramas por mês de embalagens, livres de resíduos químicos e totalmente descartáveis e recicláveis (de PEBD, polietileno de baixa densidade).

A demanda de espaço físico para estoque diminuiu e não é mais preciso ter infraestrutura para contenção de possíveis vazamentos, pois o processo ficou mais seguro. Isso também melhorou as condições de segurança no trabalho para os funcionários que transportam e manuseiam o material. “A Water Meyer se sentiu desafiada a desenvolver um novo produto para continuar trabalhando conosco. E, como conseguimos fazer uma melhoria, eles têm uma cartela de clientes bem maior agora”, explica Elizabeth, da Sonae Sierra Brasil.

Outra possibilidade é exigir a responsabilidade ambiental do fornecedor quanto aos resíduos de suas mercadorias. O Grupo JCPM estabeleceu no contrato a obrigatoriedade de a empresa responsável pela limpeza do sistema de ar-condicionado fazer a destinação adequada das embalagens dos produtos. Da mesma forma, quando há obra nas lojas, há uma cláusula contratual que obriga o lojista a destinar adequadamente os resíduos da construção.

 

Transformação de dentro para fora

Uma publicação que pode auxiliar no conhecimento do tema é o Manual de Compras Sustentáveis, do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que tem como objetivo promover mudanças na cultura de compras empresariais. Segundo a publicação, a tendência dos mercados e a do consumo é pensar no ciclo de vida dos produtos e serviços, avaliar eficiência energética, racionalidade no uso da água, redução de gases de efeito estufa, diminuição da produção de resíduos, se houve desmatamento, trabalho escravo, infantil ou uso indiscriminado de agrotóxicos em alguma etapa da produção.

O Manual de Compras Sustentáveis do CEBDS aborda diversas práticas e, em linhas gerais, estabelece algumas premissas para uma iniciativa de mudança funcionar efetivamente. Por exemplo, a alta administração da empresa precisa estar envolvida e engajada com as práticas de sustentabilidade estabelecidas. Assim, há uma importante influência vertical para engajar todas as áreas envolvidas, principalmente a de compras, que também deve ser capacitada para seguir novos parâmetros de sustentabilidade. “O compromisso parte de dentro pra fora. Precisamos estar bem estruturados internamente e com todos os parceiros envolvidos na causa. Gestão ambiental é assim: sem as pessoas estarem envolvidas, não funciona”, diz Mehmeri, do Grupo JCPM.

Outro fator essencial para o sucesso dessa escolha consciente é a confirmação da veracidade das informações passadas pelos fornecedores. Ou seja, a boa atuação socioambiental dos shoppings deve ser comprovada com certificados e outras evidências documentais. Segundo Maffioletti, toda a documentação é checada, e analistas ambientais em todos os shoppings da companhia acompanham com a equipe de manutenção as diretrizes dos compromissos.

O engajamento dos fornecedores no processo de sustentabilidade e de compras da empresa é outra premissa do manual que pode ir além de seu propósito inicial e se tornar uma prática de impacto no mercado. Para Elizabeth Morita, da Sonae Sierra Brasil, “o maior ganho é quando conseguimos mudar o comportamento das pessoas de forma que elas estejam mais conscientes sobre questões ambientais. E eu vejo esse tipo de mudança nos fornecedores. Ao mesmo tempo em que há resistência ou dificuldade, vejo uma grande abertura para sair da inércia e buscar novas tecnologias e novas formas de trabalho”.


*Matéria publicada na revista Shopping Centers, da Abrasce