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21/11/2016



ESPECIALISTA EM LUXO FALA SOBRE A SITUAÇÃO DESSE MERCADO NO PAÍS



Carlos Ferreirinha tem mais de 24 anos de experiência no mercado de luxo. Antes de fundar sua consultoria, ele atuou como executivo sênior da EDS e da Louis Vuitton, do Grupo LVMH, onde foi CEO do Brasil e diretor sênior da América Latina. Em 2001, criou a MCF Consultoria, empresa que “traduz o luxo em gestão”, oferecendo serviços exclusivos de consultoria, treinamento e educação em geral.

Sob a gestão de Ferreirinha, a MCF tem clientes e projetos em todo o Brasil e também em países da América Latina, Europa e África. A lista de clientes é vasta. Entre eles estão Bentley, Burberry, Coach, Tory Burch, Tam, Grupo Accor, O Boticário, Natura, Estée Lauder Group, Lexus, Honda, Volkswagen, Whirlpool, Swarovski, Pandora, Nestlé e Johnson & Johnson.

Em entrevista à revista Shopping Centers, Ferreirinha fala sobre o momento do luxo no País, conta sobre os desafios enfrentados pelo segmento e também como aplicar “pílulas de luxo” na gestão de marcas de diferentes setores.

 

Revista Shopping Centers     Atualmente, como está o mercado de luxo no Brasil?

Carlos Ferreirinha   Vivendo as “dores e as delícias” de se fazer negócios no Brasil! Os últimos anos foram de bonança, de expansão. Anos promissores que apontavam no médio e no longo prazo patamares significativos de resultados. Foram muitos os investimentos oriundos de diversos setores e segmentos. O momento atual, porém, requer atenção, cautela e já são muitas as operações que suspendem investimentos.

 

Revista Shopping Centers     A crise impacta esse segmento?

Carlos Ferreirinha    Alguns setores mais e outros menos. Algumas marcas mais e outras menos. Mas crise é um fato inegável de risco, de cautela, de atenção. A situação brasileira tem afetado principalmente o ânimo, o estímulo e a motivação de consumo, que no luxo tem um impacto ainda mais forte, já que se trata de uma tomada de decisão de consumo emocional e não da necessidade. Há ainda o fato de que os custos brasileiros se elevaram muito, a burocracia anda mais complexa, sem contar a letargia econômica.

Se por um lado a baixa expressiva do consumo internacional dos brasileiros tem favorecido o doméstico, e com isso algumas marcas têm registrado crescimento em vendas, por outro o resultado final financeiro está bem mais modesto e bem mais difícil de ser alcançado. Margens comprometidas, esforços enormes, desestímulo das matrizes das marcas internacionais... Os desafios são muito grandes e colocam o Brasil novamente sob a avaliação de valia.

 

Revista Shopping Centers     Você costuma dizer que o consumidor de luxo é mais resiliente. Por quê?

Carlos Ferreirinha    Os impactos da queda econômica demoram mais para atingir diretamente esse perfil de cliente propenso ao consumo do luxo. Há ainda o fato de que o que determina a compra é o desejo e não a necessidade. Reduzo no que preciso, mas arrisco mais no que eu gostaria. E há um nível de clientes cujo perfil de renda se mantém intacto para esse consumo. Na atual crise brasileira, a massa sofrerá mais e o cliente de luxo se manterá mais firme. Há de focar nele neste momento.

 

Revista Shopping Centers     Na sua opinião, de modo geral, o que falta ao mercado de luxo brasileiro?

Carlos Ferreirinha    Praticamente o que falta a todos os setores. Capacidade de enxergar a longo prazo, desburocratização, elevação do patamar de competitividade, menos alterações nas regras, estabilidade econômica. As marcas de luxo olham e investem no longo prazo. O longo prazo, sempre sombrio no Brasil, gera dúvidas e incertezas.

 

Revista Shopping Centers   Como o brasileiro consome luxo? É diferente do consumidor de outros países?

Carlos Ferreirinha     Não necessariamente. Temos praticamente o mesmo tipo de buscas e aspirações. Há de se considerar maturidade econômica, maturidade enquanto sociedade de consumo. Mas, de forma geral, somos muito alinhados. Brasileiros são geralmente mais impulsivos no consumo, muito mais sinestésicos, amam ser mimados, apreciam em demasia os serviços.

 

Revista Shopping Centers   Muitas marcas que atuam no segmento de público de massa buscam por sua consultoria. Como uma empresa que não é desse mercado pode usar o luxo como ferramenta de diferenciação?

Carlos Ferreirinha    O que sempre dizemos e há 15 anos trabalhamos na MCF com base nessa crença, foco e metodologia é que nem todas as empresas podem ou deveriam ser de luxo, mas todas podem aprender com a inteligência de gestão dessas marcas. A capacidade delas de ser comprometidas com a excelência, de exercitar a diferenciação plena, de não abrir concessões... Dizemos que são “pílulas de luxo” que podem ser tomadas em diversas áreas, produtos, atendimento, serviço, experiências... Os exemplos são vários. O Boticário, com o lançamento da fragrância Elysée; a Sky, com a categoria Sky Spinel (que oferece experiências exclusivas aos clientes da operadora); a Natura, ao incluir em seu portfólio a marca australiana Aesop; a Fiat, ao lançar o Jeep Renegade; e até mesmo padarias simples que passam a oferecer experiências de consumo a seus clientes.


Matéria publicada na revista Shopping Centers, da Abrasce