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02/09/2016



ENTREVISTAMOS CARLOS JEREISSATI FILHO


À frente de uma das empresas de shopping centers mais tradicionais e ao mesmo tempo mais inovadoras do país, Carlos Jereissati Filho fala sobre como ter crescido em meio aos empreendimentos fez diferença para gerir a Iguatemi Empresa de Shopping Centers


Por Camila Mendonça*



 

Os corredores de shopping centers são espaços bem familiares para Carlos Jereissati Filho. Desde pequeno, ele circulava pelos malls ao lado do pai, Carlos Francisco Jereissati. Não demorou muito para que o filho tomasse gosto pela atividade e, com o tempo, passeasse por ela. “Eu já nasci dentro desse negócio, fui crescendo e me identificando com ele”, conta  Jereissati, que hoje é presidente da  Iguatemi Empresa de Shopping Center, uma das companhias do setor  mais tradicionais e, ao mesmo tempo, mais inovadoras do país.

 

 

Antes mesmo de o executivo nascer, a empresa já fazia história no setor. Há 50 anos, entrava em operação o Iguatemi São Paulo, primeiro shopping a ser inaugurado na América Latina. Como parte das comemorações, foi lançado o manifesto Viver é Maravilhoso que traz em um de seus trechos a seguinte mensagem: “E se a idade fosse contada pelo que realmente importa, pelos fatos inesquecíveis e não pelo tempo que passou... Para nós, viver é estar em constante movimento, sempre abertos aos novos pensamentos. Aprendendo todos os dias, estamos nos transformando a cada estação”.

 

Carlos Jereissati Filho comenta que nos 50 anos de história, o Iguatemi São Paulo não foi apenas testemunha das mudanças ocorridas na capital. “Juntos, fomos protagonistas das muitas transformações nos hábitos dos paulistanos e no cenário urbano que moldaram a metrópole vibrante, moderna e cosmopolita em que vivemos hoje. Nossa vocação sempre foi inovar e oferecer a São Paulo um espaço único, apaixonante e inspirador. E é assim que vamos continuar atuando nos próximos 10, 20, 50 anos”, comenta.

 

Nesta entrevista, o executivo fala sobre sua trajetória, as particularidades do segmento de luxo na indústria de shopping center, o comportamento do consumidor e como a Iguatemi tem lidado com as mudanças do mercado. Confira.

 

 

Revista Shopping Centers: Você começou bem cedo em shoppings. Nunca cogitou trabalhar em outra área?  

 

Carlos Jereissati Filho  Nasci em 1971, e meu pai entrou no negócio de shopping centers em 1979. Conforme fui crescendo, fui me identificando com esse setor. Também me interessei pela construção de empreendimentos, pela arquitetura desses espaços, por comportamento de consumo, serviços, em saber como lidar com as pessoas e conviver com os clientes. Primeiro aprendi como um expectador interessado pelos negócios da família, depois me tornei um profissional parte desse mercado. Para mim foi como um passeio: crescer no negócio, fazer faculdade, poder entrar e escalar o business.

 

Revista Shopping Centers: Já era uma ideia natural para você tocar a empresa do seu pai?

 

Carlos Jereissati Filho  Dentro dos valores da minha família, um deles é o trabalho duro. Trabalhar é um hábito e é importante começar cedo. É claro que, como filho, acreditava que teria uma posição importante na companhia, mas isso dependeria de adquirir as competências necessárias. Eu sempre me interessei mais pelas atividades da empresa do que pelas posições. Fui fazendo várias coisas e me desenvolvendo na companhia. Naturalmente me tornei superintendente. E, quando fizemos a abertura de capital, me tornei o presidente.

 

 

 

Revista Shopping Centers: Empreender no Brasil é desafiador por natureza. Como é empreender no setor de shopping centers? 

 

Carlos Jereissati Filho  O país vem se desenvolvendo e tem criado um ambiente melhor para os negócios, embora ainda longe daquele que gostaríamos. Há muitos entraves, é preciso ter taxas menores de juros, facilitando o acesso ao capital, e mais segurança jurídica, por exemplo. As empresas de shopping centers começaram pequenas, tinham menos capital, lojistas, e menos pessoas com renda. E ao longo do tempo expandiram em tamanho, em modelos. O papel do empresário é se lançar e ao mesmo tempo trabalhar para melhorar a realidade dos negócios no país.

 

Revista Shopping Centers: Como é possível pensar em longo prazo no Brasil considerando todo esse contexto?


Carlos Jereissati Filho  Só se investe olhando para cenários de médio e longo prazos. Há momentos, como o que vivenciamos agora, em que as empresas ficam mais receosas e estão olhando o ambiente, produzindo projetos, mas não estão investindo. Percebemos que a economia brasileira está se reorganizando. É preciso observar e se preparar para o novo ciclo que certamente virá, que é de crescimento do país, porque ainda temos potencial de investimento em diversas áreas.

 

Revista Shopping Centers: Como foi o seu crescimento na empresa e quais foram os maiores desafios?

 

Carlos Jereissati Filho  Quando a companhia começou a crescer significativamente, ela precisava ter acesso ao mercado de capitais para ter outros parceiros. E isso exige maturidade para novos investimentos, além de coerência e preparo para trazer resultados. Essa era a grande preocupação: acessar um número grande de investidores, principalmente fora do Brasil, ser capaz de propor um plano, executá-lo e entregar resultados. E a Iguatemi conseguiu fazer isso. Hoje, quando se avalia o portfólio de quase 20 shoppings, se enxerga consistência e qualidade, e isso dá muita segurança ao investidor. O meu maior desafio foi recrutar pessoas boas, ter um bom desenvolvimento da operação e uma estratégia que pudesse ser executada. E, ao entregar isso, demos um salto. Foi um momento de aprendizado e, como presidente nesses últimos dez anos, foi um período de grande crescimento da companhia, não apenas pelo resultado econômico, mas por sua capacidade de inovação. Isso permite desenhar um futuro com perspectiva positiva de crescimento.

 

 

Revista Shopping Centers: Em todos esses anos, quais  transformações  você viu no setor e como conseguiu reverberá-las na gestão da empresa?

 

Carlos Jereissati Filho  As mudanças são importantes tanto no comportamento do consumidor como na tecnologia e no desenho do negócio. Sempre tivemos um olhar de planejamento e estratégia de acompanhá-las e propor as nossas soluções para elas. A companhia é bastante inventiva e olha para todas as variáveis que são importantes para o negócio. Hoje temos mais gente e mais estrutura para propor mudanças, ideias e inovações. É importante continuarmos próximos dos consumidores e acompanhar a velocidade dessas transformações.

 

Revista Shopping Centers: Como você trabalha o luxo dentro do shopping, de maneira a não parecer excludente?

 

Carlos Jereissati Filho  Todo negócio tem suas variáveis e suas segmentações, que é nosso caso. Trabalhamos um público de médio a alto padrão. Não é o luxo propriamente dito. Talvez mais o Iguatemi SP, JK e Brasília, dentro de um portfólio de quase 20 shoppings. Precisamos compreender que, em shopping, quanto mais exigente é seu consumidor, maiores a dificuldade e o trabalho para atendê-lo adequadamente. No Brasil não existe nenhuma empresa de shopping que saiba trabalhar com o cliente de luxo como a Iguatemi. Com isso, aprendemos a ser também uma companhia de prestação de serviços, com excelência operacional e capacidade de inovação em marketing e em serviços. A Iguatemi conseguiu oferecer ao brasileiro a possibilidade de comprar as melhores marcas e produtos no Brasil sem precisar transformar uma viagem de lazer ao exterior em viagem de compras.

 

Revista Shopping Centers: Quais são os próximos passos e desafios do setor e da empresa? 

 

Carlos Jereissati Filho  Acredito muito que o espaço físico é ainda relevante para as pessoas. Claro que tem de ter uma proposta importante, com ambientes e serviços atrativos, e ações de marketing capazes de encantar as pessoas. Temos de ser cada vez mais relevantes para as cidades e encontrar maneiras de conectar o shopping à cidade onde ele está instalado. Quem tiver a capacidade de fazer isso, com equação e inteligência, vai continuar muito forte no jogo.

 

* Matéria publicada na revista Shopping Centers, da Abrasce