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07/07/2016



EFICIÊNCIA ENERGÉTICA REDUZ GASTOS


Instalação de lâmpadas LED, projetos de captação de energia solar, aproveitamento da luz natural e sistemas automáticos de desligamento ajudam a reduzir gastos e emissões de gás carbônico (CO2), um dos vilões das mudanças climáticas


Por Instituto Akatu*


 

Verde, amarelo e vermelho são as cores da energia no Brasil desde 2015. Criadas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), as bandeiras tarifárias sinalizam ao consumidor o custo real da geração do insumo. As cores são uma forma de tornar as contas mais transparentes com base nas flutuações do preço da produção de energia e, assim como em um semáforo, alertam quando é urgente frear o consumo.

 

Os aumentos na tarifa de luz, percebidos pela população desde 2014, estão diretamente relacionados à crise hídrica, já que cerca de 65% da energia consumida no Brasil provém de usinas hidrelétricas, como indica o Balanço Energético Nacional 2015, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) do Ministério de Minas e Energia. Quando o nível dos reservatórios de água no Centro-Sul e Nordeste do país fica baixo, são acionadas as usinas termoelétricas.

 

Nelas, a energia é gerada a partir do calor produzido pela queima de combustíveis como gás, petróleo, carvão e biomassa, como o bagaço de cana-de-açúcar. O custo de produção nesses processos é maior que o das hidrelétricas por kWh gerado. Além de pesar mais no bolso, essa fonte de energia tem maior impacto ambiental, pois a queima de combustíveis fósseis emite CO2, aumentando a presença de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera, o que intensifica o aquecimento global.

 

As termoelétricas têm sido acionadas quase ininterruptamente desde 2012, embora essas usinas tenham sido programadas para operar apenas de três a quatro meses por ano. Essa estratégia evitou racionamentos e interrupções no fornecimento de energia, mas fez com que a nossa matriz energética ficasse “mais suja” em termos de emissão de carbono. Em 2014, a parcela de energia elétrica gerada a partir delas correspondeu a aproximadamente 23% do total de energia consumida no país, enquanto a contribuição de fontes hidráulicas diminuiu 4,5% em comparação com o ano anterior. É nesse contexto que muitos estabelecimentos estão empenhados em ampliar sua eficiência energética.

 

Mas reduzir o consumo de energia não é apenas uma questão de baixar custos. O que mais os brasileiros admiram nas empresas é se elas estão comprometidas com a redução de consumo de energia. A escolha foi a campeã nas menções (90%) da pesquisa Akatu “Rumo à Sociedade do Bem-Estar”, que questionou 800 pessoas de 12 grandes cidades de todas as regiões do Brasil sobre o que elas preferem ou admiram na atuação das empresas e o que as faria mudar de comportamento com relação a elas. “A pesquisa do Akatu indica que a tendência do consumidor brasileiro é dizer ‘sim’ a empresas que já incorporaram as práticas de responsabilidade social empresarial (RSE) e ‘não’ àquelas que insistem em atuar a partir de práticas insustentáveis. O desafio das companhias é transformar o seu modelo de produção e garantir a oferta de produtos e serviços que respondam a esses desejos”, afirma Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu.

 

Conheça a seguir alguns cases de shoppings que reduziram consumo, desperdício e gastos, e estudam novas formas de se relacionar com a energia.

 

Soluções com LED

 

O Centro Comercial Aricanduva, formado pelos shoppings Aricanduva, Interlar Aricanduva e Auto Shopping São Paulo, reformulou o sistema de iluminação no fim do ano passado e conseguiu uma significativa redução – de 60% – no consumo de energia elétrica destinada à iluminação. A execução do projeto no Shopping Aricanduva, feito pela Current, Powered by GE, durou sete meses e aproveitou a base de luminárias e conectores já instalados nos shoppings, substituindo aproximadamente 20 mil lâmpadas fluorescentes de 32 watts e 40 watts por equivalentes de LED tubulares de 16 watts. “Era fundamental que o projeto aliasse ganhos em luminosidade, menor consumo energético e operação ambientalmente mais amigável”, afirma Marcos Sérgio Novaes, diretor superintendente do Shopping Aricanduva.

 

As lâmpadas de LED (light emitting diode) podem durar até 13 anos  cinco vezes mais do que as LFCs (fluorescentes compactas) e 25 vezes mais do que as incandescentes  e operar por até 50 mil horas com perdas mínimas no nível de irradiação de luz. O preço da LED é mais alto, mas a diferença é recuperada em 11,5 meses ao substituir uma lâmpada incandescente, e em 36,6 meses caso a LED ocupe o lugar de uma fluorescente. “Pela vida útil maior e pela menor perda de luminosidade, são poucas as vezes em que é necessário trocar ou reparar lâmpadas de LED”, explica Alexandre Ferrari, gerente-geral da Current, Powered by GE para o Brasil.

 

Essa tecnologia melhorou em cerca de 40% a eficiência energética dos shoppings Iguatemi São José do Rio Preto, Iguatemi Ribeirão Preto, JK Iguatemi e Iguatemi Brasília. A troca por lâmpadas LED permitiu a esses empreendimentos poupar 500 mil kWh por ano. Com isso, os 17 shoppings da rede Iguatemi economizam anualmente cerca de 2 milhões de reais.

 

O Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, também trocou suas lâmpadas pelas de LED em 2014 e contabilizou uma economia de 25% de energia. Essa e outras ações de eficiência energética se traduziram na queda de consumo de 210 MWh por mês, segundo Zafenate Cardoso, gerente de operações, o que representa uma economia mensal de aproximadamente 160 mil reais, poupados pelo empreendimento visitado diariamente por 20 mil pessoas.

 

Luz natural e outras iniciativas

 

O aproveitamento da luz natural, por meio de skylights (tetos de vidro) e claraboias (aberturas no teto para iluminação e ventilação), diminui os gastos com energia durante o dia, segundo Ciro Neto, diretor de operações da Iguatemi Empresa de Shopping Centers. Em sete empreendimentos do grupo, como o Shopping Iguatemi Brasília, os corredores que recebem luz natural permanecem de dia com as lâmpadas apagadas.

 

Para fazer com que a iluminação natural não eleve a temperatura, o que exigiria maior gasto do ar-condicionado, o Shopping Leblon instalou películas nos vidros das claraboias e controle de temperatura no sistema de resfriamento. Além disso, o mall estabeleceu rotinas para ligar e desligar equipamentos de acordo com a sazonalidade.

 

Há ainda outras iniciativas que contribuem para reduzir o gasto de energia elétrica, como a automatização de sistemas para melhorar a eficiência, o controle automático de equipamentos e uma estação meteorológica integrada com o sistema de ar-condicionado. Essas medidas reduziram entre 10% e 30% o consumo de energia do grupo Iguatemi. O Iguatemi Campinas também borrifa gotículas de água no telhado para resfriar o ambiente e melhorar a eficiência do ar-condicionado. São cuidados que fazem a diferença: ambas as ações permitiram a redução de 25% no consumo do insumo.

 

Sistema fotovoltaico

 

A energia solar ainda não é um recurso amplamente utilizado por shopping centers, mas o panorama parece estar mudando. “Existe uma procura grande. Eles estão estudando onde e como fazer a instalação. Todos estão prospectando, fazendo estimativas”, explica Victor Cancio, assistente de vendas da SunEdison Brasil. Outra empresa que desenvolve projetos de energia solar, a Solar Energy, também sentiu esse movimento no mercado: “Com os reajustes do ano passado, alguns empreendimentos percebem a vantagem econômica. Mesmo para quem tinha energia mais barata, faz sentido migrar para a fotovoltaica”, pontua Hewerton Martins, CEO e fundador da Solar Energy.

 

Pensando nisso, a Multiplan investiu em um projeto piloto para testar a tecnologia dos painéis solares e implantar o sistema fotovoltaico nos shoppings do grupo que ainda estavam sendo construídos. O ParkShoppingSãoCaetano instalou o sistema da Empresa Brasileira de Energia Solar (EBES) em uma área de 282 metros quadrados do estacionamento externo em 2014. Responsáveis por gerar 99.360 kWh por ano, os painéis proporcionaram uma economia de 35 mil reais.

 

O sistema depende apenas da luz solar para gerar energia limpa e sustentável. Por ser estático, não pressupõe atrito e, portanto, é menor o desgaste dos materiais, dificilmente requerendo a substituição de peças. O retorno do investimento varia de acordo com a tarifa e a tensão. Martins estima prazo de 10 a 12 anos no caso de tarifas incentivadas na conta de luz. “A vantagem inicial é a redução imediata do consumo, percebida já no primeiro mês de operação”, afirma Cancio. Isso porque o sistema fotovoltaico mais utilizado no mercado, segundo ele, é o on grid (ou grid-tie), ligado à rede de distribuição estadual. Ele gera energia durante o dia, quando há luz, e a estimativa é comprar até 80% menos eletricidade da distribuidora.

 

A vida útil e a garantia de um bom fabricante são de 25 anos, e o sistema não exige manutenção. Os painéis, testados um a um, têm processo de produção robusto e rigoroso. É preciso apenas trocar os inversores a cada 15 anos. “Depois de 25 anos, perdem-se 18% da potência do sistema. Até sentir a perda de 50% da potência, são necessários outros 50 anos”, afirma.

 

Essas soluções permitem que o empreendimento fique menos suscetível às flutuações do custo da energia e, ao mesmo tempo, reduza os impactos negativos gerados ao meio ambiente. Um shopping consciente e eficiente é mais do que um chamariz para clientes engajados, é um exemplo a ser seguido, com o poder de multiplicar mudanças de atitudes das pessoas. “Não é só o preço, a economia e o prédio sustentável. Existe um bom retorno financeiro, mas a visibilidade do projeto ainda é maior do que isso”, afirma Cancio.

 

 

Crédito para mudar

 

Em janeiro foi liberada uma linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) para o mercado de energia fotovoltaica, e a Solar Energy foi a primeira empresa a consegui-la para sistemas completos. Entretanto, o limite de crédito de 1 milhão de reais não cobre sistemas de grande porte, como os que seriam instalados nos shoppings.

 

Solar Energy montou um projeto para um shopping no Rio de Janeiro cuja energia era cobrada individualmente para cada loja, modelo com altas tarifas. A proposta era o empreendimento ceder a área coberta do estacionamento aos lojistas para a instalação de painéis solares, mas o projeto nunca foi implantado. “O shopping também pode instalar o sistema e cobrar o aluguel da vaga às lojas. Ele ganha conforto térmico, faz publicidade e gera eletricidade. E as lojas podem dizer que usam energia limpa. É um modelo inovador”, sugere Martins. A linha de crédito do BNDES permitiria custear a instalação de painéis em 20 vagas. Cada vaga geraria de 1.100 a 1.200 kWh por mês, a depender da incidência de luz. Assim, Martins estima uma economia mensal de 18.480 reais por parte do empreendimento.

 

Outro projeto, também não implantado, avaliou a possibilidade de instalar painéis translúcidos na praça de alimentação. Ou seja, o espaço teria iluminação natural e ao mesmo tempo proporcionaria a geração de energia. “Isso vai acontecer, mas levará algum tempo. A produção desse painel é feita sob encomenda, e o custo é bem mais alto do que o tradicional, porque é de vidro duplo”, explica Martins.

 

*Matéria publicada na revista Shopping Centers