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18/03/2016



O BRASIL EM 2016


Por Carlos Kawall Leal Ferreira e Priscila Pereira Deliberalli*

O ano de 2015 deixou claro que os desequilíbrios da economia brasileira são graves e a necessidade de ajuste é mais profunda do que se antecipava. A crise de confiança levou a uma forte contração do consumo no Produto Interno Bruto (PIB) - estimamos queda de 3,8% em 2015), inédita desde 2003 (quando caiu meros 0,5%). Infelizmente, acreditamos que tal cenário se intensificará em 2016: o PIB deve recuar menos (queda de 2,9% este ano frente aos - 3,9% de 2015), mas o consumo terá redução ainda mais relevante (-5,0%).

Como explicar essa performance da economia? Em primeiro lugar, a profunda deterioração das contas públicas, dada a rigidez do gasto público (90% dos quais são obrigatórios, notadamente previdência e benefícios sociais), gerou rápido crescimento da dívida pública, elevando o risco país e levando à perda do grau investimento. Essa incerteza explica o movimento do câmbio em 2015 e deve fazer o real atingir R$ 4,20/US$ ao final do ano.

Em segundo lugar, a inflação de 10,7% em 2015, resultante da correção de preços administrados e choque de câmbio, levou o Banco Central (BC) a novamente apertar a política monetária. Em 2016, o BC deve voltar a elevar os juros (150 pontos base), frente ao patamar elevado da inflação frente à meta. Contudo, a desaceleração da atividade deve fazer com que o juro seja reduzido ainda este ano, com a Selic terminando em 14,75%.

O mercado de trabalho se enfraqueceu fortemente e se espera um taxa de desemprego superando 10% ao longo de 2016 – impedindo a recuperação da confiança do consumidor, que hoje está no patamar mais baixo da série histórica iniciada em 2005. As vendas do setor de vestuário, móveis e eletrodomésticos mostram uma queda ainda mais intensa que a média do consumo, exatamente por serem itens de consumo muito dependentes da confiança.

De positivo, chamamos atenção para os efeitos que o câmbio tem tido na atividade exportadora e na redução das importações, fator importante de estímulo à atividade quando o consumo se contrai, e a paulatina queda da inflação, viabilizando a queda de juros ao final do ano, o que permitirá uma estabilização do nível de atividade.

Mas a retomada do crescimento econômico e do consumo só ocorrerá com ambiciosa agenda de reformas econômicas nas áreas tributária, legislação trabalhista, previdência, privatização e abertura econômica. Medidas paliativas pontuais de estímulo ao consumo não resolverão. Cabe, então, aguardar o desfecho da crise política, para que seja retomada a governabilidade perdida, permitindo avançar nas reformas inadiáveis.

 

*Carlos Kawall Leal Ferreira é economista-chefe do Banco Safra e professor da FGV-SP, foi Secretário do Tesouro Nacional; e Priscila Pereira Deliberalli, economista sênior do Banco Safra, doutora em economia pela Universidade de Illinois, EUA - artigo publicado originalmente na revista Shopping Centers 204